A Prosa da Quarta – 26/10/2011 – Ênio Brito Pinto
Esse nosso difícil idioma
Hoje, mais uma vez, quando me sentei para escrever esta crônica fui pego pela dificuldade para escolher um assunto. Quando isso ocorre, às vezes deixo o pensamento vagar para ver se algo de interessante ocorre, ou vou até a Internet à cata de alguma notícia que provoque o desejo de fazer algum comentário. Hoje recorri ao segundo caminho.
Passeando pela página do Uol, vi uma nota, sobre TV, cujo conteúdo é interessante: o colunista protestava contra um erro de ortografia que apareceu em um programa da Globo, a palavra ‘acento’ grafada enquanto o apresentador falava sobre o assento especial de um ônibus. De fato, nossa língua tem algumas pegadinhas assim, significados bem diferentes quando trocamos uma, e apenas uma, letra de uma palavra. Além da citada acima, a troca pode ser feita em conserto e concerto, emergir e imergir, eminência e iminência, dentre outros exemplos, sem esquecer dos tão diferentes ‘mas’ e ‘mais’, tantas vezes confundidos.
O que me chamou a atenção não foi exatamente a nota, mas os comentários que se seguem a ela, postados por internautas. Em sua maioria, eles protestavam contra a irrelevância da nota, alguns criticando o difícil idioma português, outros criticando a exagerada preocupação com a fala correta, outros aproveitando para criticar o excesso de anglicismos em nossa comunicação cotidiana, outros, ainda , mais exacerbados, ofendendo o colunista por abordar um tema desses. Foram esses comentários que me puseram a pensar e, pensando, a me perguntar.
A primeira pergunta diz respeito à importância da fala culta, alvo da maioria dos comentários postados. Qual é mesmo a importância de que falemos corretamente o nosso idioma? Para que devemos aprender a falar e a escrever direitinho, se somos suficientemente compreendidos quando cometemos erros comuns, especialmente esses em que a fala é a mesma, embora a grafia seja diferente? Na verdade, essa foi a principal tônica dos comentários dos internautas.
Essa pergunta traz uma falácia nela própria, por isso parece irrespondível. Ela, a pergunta, parte do pressuposto de que somos bem entendidos ao falarmos ou escrevermos incorretamente, e isso não é exatamente a verdade, a não ser em raríssimas ocasiões. A correção ortográfica, a correção gramatical, estão, sempre, a serviço da boa comunicação. É por isso que um concerto pode consertar uma alma, que imergir na água gelada do rio Verde faz emergir uma grande vivacidade, especialmente quando Sua Eminência está na iminência de tomar uma decisão importante, mas, por mais que se esforce, ainda não sabe que caminho tomar.

