A Prosa da Quarta – 09/11/2011 – Ênio Brito Pinto
Monólogos que Parecem Diálogos
Há uma cena que vejo amiúde no Ibirapuera que sempre me remete para os tempos de minha infância em Itanhandu, minha saudosa Itanhandu, cidade mineira onde nasci e onde quero morrer.
Quando criança em Itanhandu, aprendi muito cedo que a gente deveria evitar contato com os loucos, pois eles eram perigosos. Lembro-me de minha avó sempre recomendando que evitasse estar perto dos loucos e dos ciganos, esses últimos especialmente, pois eles raptavam crianças e as obrigavam a também se tornarem ciganos. Quando os ciganos chegavam, era fácil reconhecê-los, sempre um grande grupo a cavalo, roupas coloridas, as mulheres vendendo tachos de cobre pela cidade, batendo de porta em porta, fazendo as crianças assustadas correrem para os braços das mães e avós com medo de serem raptadas. Quanta maldade se fazia com as crianças!
Se os ciganos eram facilmente reconhecíveis, o mesmo não se dava com os loucos. Mas os loucos eram também perigosos, me diziam. Como reconhecê-los, então? A solução era fácil: os loucos falam sozinhos. Então, se você vê alguém falando sozinho, fuja dessa pessoa, pois se trata de uma louca. Essa era a receita, uma receita assustadora quando, por distração, eu me via falando sozinho! Estarei ficando louco? E logo parava de falar sozinho, só para ver se conseguia ficar no silêncio que redimiria minha saúde mental. Quanta maldade se fazia com as crianças!
E aí eu chego na tal cena no Ibirapuera à qual me referi acima. Não é raro eu ver por lá pessoas que, de certa maneira, falam sozinhas, pois usam aquele aparelhinho (cujo nome não sei) que, acoplado ao celular, permite falar e ouvir sem colocar o aparelho celular à altura da face. Embora não estejam falando sozinhas, essas pessoas parecem falar sozinhas, especialmente porque invariavelmente falam muito alto, como se quisessem que todos os que estão por perto ouvissem sua conversa. Eu olho para eles e passo longe, confiando que, embora o conselho da minha avó não valesse para os loucos de verdade, seguramente ele vale para esse tipo de loucura de nossos tempos, a ilusão de que o outro não importa. Tanto não importa, que não faz a mínima diferença ele estar ouvindo minha conversa, ou não: tem-se hoje o mesmo recato perto dos outros humanos como se tem perto dos sabiás que cantam na madrugada paulistana.
Acabo achando que minha avó tinha razão: os loucos não sabem cuidar da própria privacidade, e muito menos da própria intimidade. Por isso falam sozinhos. O problema é que o mundo está se enchendo de loucos, loucos de uma loucura altamente contagiosa, causadora de um tipo muito especial de solidão, infrutífera e alienante, desumana e desumanizante. Há cada vez mais gente falando sozinha em frente aos computadores ou através dos celulares, loucamente sem nem perceber como estão sós.

