A Prosa da Quarta – 16/11/2011 – Ênio Brito Pinto
Sobre Feriados
Escrevo durante o feriado, embalado pela chuva que cai sem parar e com muita força. Não é um dia para passear, é dia que pede recolhimento, sossego, lentidão. Dia de ficar em casa vendo o tempo passar. Ou dia de ficar em casa e se ocupar de coisas não usuais, mantendo distância do trabalho. Fico imaginando quantas pessoas estarão aproveitando o feriado para trabalhar, para colocar em dia algumas questões profissionais! Esses não saem do usual hoje, e, nos tempos de computador, são em cada vez maior número. Mas a culpa não é do computador, nem dos avanços que ele permitiu, mas do homem que não se cansa de ser explorado por e de explorar o próprio homem.
Mas há aqueles que ficam em casa e conseguem não ligar a TV ou o computador. Esses são cada vez mais raros, talvez quase inexistentes. Conseguem despender seu tempo com leituras, prosas, pequenas arrumações na casa, comida feita com cuidado e lentidão, talvez um pouco de silêncio, a respiração mais tranqüila, enfim, descanso efetivo. No meu modo de ver, são privilegiados. Talvez por isso sejam tão raros hoje em dia. A sabedoria sempre foi para poucos.
Muitos estão ainda pelas estradas ou se preparando para entrar nelas, volta para casa complicada pela chuva, cuidado redobrado ao dirigir, cansaço maior ao chegar. É tamanho o movimento nas estradas em cada feriado que acabo acreditando que o melhor lugar para se passar esses dias é mesmo em São Paulo, uma cidade que fica sossegada e sem trânsito, praticamente com a quantidade de pessoas que idealmente ela deveria ter para que pudéssemos desfrutar de uma vida mais agradável e mais saudável.
Na quarta-feira começa a última semana curta do ano, o que também é gostoso. Mal se começa a trabalhar, e já é hora de parar para o fim de semana. Mudar o ritmo geralmente faz bem, e é isso que atrai mais nos feriados, a possibilidade de se mudar o ritmo da vida.
Isso me faz pensar que a maioria das pessoas cuida pouco dessa necessária quebra de ritmo no cotidiano, deixando-se ficar por conta do controle externo para que isso aconteça. Pensam que, se não podem mudar o horário de trabalho, não podem mudar o ritmo do dia a dia, o que está errado. O ritmo pode ser mudado de dentro para fora, através de pequenas e simples atitudes, como mudar o caminho e/ou o horário em que se vai para o trabalho, experimentar novas combinações de cores nas roupas cotidianas, dar um sorriso ou um carinho inesperado para alguém, rir sem motivo, descobrir a cada dia uma nova beleza que ainda não se viu no caminho habitual, enfim, criando ‘micromicroferiados’ que regalem a alma.

