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A Sessenta Segundos por Minuto – Mauro Figueiroa

Vejo o relógio sobre a mesa em que escrevo, escuto o seu tic-tac, tic-tac, marcando a passagem e a permanência do tempo.  Penso nos meus sessenta anos recém completados. Fiz as contas, foram quase dois bilhões de segundos,  as vezes um segundo pode fazer a diferença entre a vida e a morte, ou, como no filme “Corra Lola”, um segundo pode mudar toda a história. Em todo caso, no final o ponteiro vai parar em algum ponto, nem um segundo a mais, nem a menos.

Dizem que a maior invenção do homem foi o parafuso, outros acham que foi a roda, ambos são circulares, um gira para mover, o outro para fixar, me ocorre agora que, o que para mim talvez seja uma das piores invenções do homem, também tem uma estrutura circular e um funcionamento giratório, estou falando do relógio, como este  que agora escuto o tic-tac e que estabeleceu a precisão do tempo e a pontualidade. Acreditando que poderíamos controlar o tempo acabamos também nos tornando seu escravo, passando a viver apressadamente, como o coelho branco do livro “As Aventuras de Alice no País das Maravilhas”. Um dos grandes slogans do capitalismo é ‘tempo é dinheiro’ e desde então o sentimento de perda de tempo prevaleceu,  mas na verdade, tempo nunca se perde, só se ganha.

Isto me faz lembrar de um amigo do colégio que tinha um relógio do tipo cebolão, de marca  Seiko, que andava na moda; o dele só tinha o ponteiro de segundos e, quando alguém perguntava as horas, ele mostrava o ponteiro do relógio para a pessoa e respondia: JÁ! Era uma espécie de manifesto de inspiração dadaísta, ante a ditadura do horário.

No filme “Easy Rider”, tem um momento, logo no inicio, em que os dois hippies, que são os personagens da história, ao tomarem uma auto-estrada, param suas motos e um deles desata o relógio do pulso e o lança para trás, marcando a ruptura com o modo de vida habitual e programado da vida social para uma vida anarquicamente improvisada, como a viagem de aventuras e sem retorno que estão iniciando.

Por uma vez na vida eu tive o gosto de espatifar um relógio despertador que se recusava a obedecer ao botão Off. Apesar de ser o único que eu tinha, e mesmo tendo que levantar em seguida, para não perder a hora do trabalho, confesso que senti um certo prazer em tê-lo feito. Por um momento me senti rompendo as grades invisíveis e rígidas das horas marcadas.

Volto a escutar o tic e tac, é um  som repetitivo e binário, ao mesmo tempo em que me indica a passagem do tempo, também me convoca para a sua permanência no presente imediato, o agora.

Acompanho o som, vou registrando a seqüência incessante de momento a momento, me deixando ali aquietado, esquecido de tudo, só, escutando, tic tac, e,  ao me dar conta, da presença do silêncio entre o tic e o tac, vislumbro, por um triz, um vago sentido de plenitude. Por um momento, esqueço de mim mesmo, mas um cheiro de carne queimada me lembra que eu também esqueci o forno ligado e, quando dou por mim, já estou novamente correndo feito um ponteiro de segundos  movido pelas engrenagens do tempo tentando salvar o jantar. Aos sessenta anos, perder tempo elucubrando sobre o mesmo tudo bem, mas perder o jantar, nem pensar.

  mauro@gestaltsp.com.br