A Prosa Infrequente – 20/01/2012 – Ênio Brito Pinto
Sobre Envelhecimento e Amadurecimento
Nesse ano, como já anunciei, não vou escrever sistematicamente, fazendo-me presente neste espaço todas as semanas, como fiz no ano passado. Serei mais esporádico, escrevendo quando a inspiração pedir ou o tempo para isso se mostrar bem disponível. De toda forma, estarei presente por aqui muitas vezes, como hoje. Não serão mais as “prosas das quartas”, como no ano passado, mas a prosa fortuita, infrequente.
Desde há muito, um tema rodeia minha cabeça qual borboleta a uma flor, graciosa, querendo ser reparada, querendo ser compartilhada. Esse tema vem de mais um óbvio que percebi recentemente: estou envelhecendo, e isso é bom e ruim. É ruim e bom porque o corpo envelhece, ao passo que a alma amadurece.
De fato, são dois processos bem diferentes, geralmente tomados pelas pessoas como se fossem um só, o que acaba por gerar desequilíbrios e sofrimentos que poderiam ser evitados. Quantas vezes não dizemos, ou não ouvimos outros dizerem, que envelhecer é ruim, que é um sofrimento sem fim. De fato, por um lado, essa é mesmo a parte ruim da passagem pelo tempo: o corpo atinge um auge no começo da idade adulta e depois é só decadência, perda de forças, de formas e de habilidades, até a morte, a disfunção final de todo o corpo.
Do outro lado, o espírito não envelhece, mas amadurece, o que é bem diferente. Porque aqui não há necessariamente decadência ou estagnação ou perda, mas a possibilidade, sempre infinita, de aumento de sabedoria, de mais saberes, de aprendizagens as mais diversas. Mas isso não é para todos, talvez não seja nem mesmo para a maioria, pois muitos, muitos mesmo, preferem se apegar ao corpo e só sentirem as perdas, e enfatizarem as perdas, e tentarem negar essas perdas, sem ousar prestar mais atenção a esse lado de ganhos. Buscam imaginários elixires da eterna juventude, deixando de aprender com as perdas, com os ganhos, com a inevitável provisoriedade da existência.
Um dos mais importantes e mais difíceis amadurecimentos da alma é a aceitação, tão dura!, de que o corpo decai e, com isso, a vida se esvai a pouco e pouco. Como é pesada a finitude para nós, que temos consciência do morrer! Como é complicado compreender que a morte nasce com a vida e, paradoxalmente, é o propósito da vida!
Para mim, neste momento, esse tema borboleta que me rodeia a cabeça e pede atenção é um lembrete de que estou envelhecendo cada vez mais rápido, como sói acontecer aos corpos vivos. É um lembrete para que eu cuide cada vez com mais atenção da possível plenitude da vida que vivo, corpo e alma, pois, independentemente do tempo que ainda tenho, é preciso desfrutar mais do aqui e agora.

