O Carnaval chegou, você já escolheu sua fantasia? – Mauro Figueiroa
Já gostei muito de carnaval, principalmente na infância quando as máscaras eram de papel e elástico, tínhamos as bisnagas para jogar água e os lança-perfumes eram bem usados e deixavam aquele cheirinho próprio no ar; depois vieram os martelinhos de plástico que a moçada usava para dar um “oi” nos possíveis paqueras.
Tinha também o confete, a serpentina e, o principal, aquele clima de festa sem igual. Nos rádios, eram as marchinhas e os sambas-enredo e, na televisão, os famosos desfiles de fantasia.
Perto da minha casa, tinha os ensaios de uma escola de samba, ficava ali vendo e ouvindo admirado o batuque da bateria e até hoje, quando topo com uma, esta admiração retorna.
Tinha também os desfiles de blocos, ranchos e cordões, além das próprias escolas. As pessoas, além de se enfeitarem, enfeitavam os carros e as bicicletas. Estas tocavam uma espécie de cuíca composta de uma latinha presa por uma linha e um elástico que girava em falso no eixo da roda, alguns carros e caminhões prendiam com arame um vidrinho no escapamento que apitava.
As ruas ganhavam uma vida divertida, onde cada um a seu jeito contribuía para um espetáculo anônimo e coletivo. Também havia os bailes nos clubes, as matinês e os noturnos, nos quais uma orquestra animava uma dança espontânea e, ao mesmo tempo, disciplinada, girando pelo salão.
Confesso que me dá saudades. Nostalgia? Sem dúvidas, mas também uma constatação: a espetacularização empresarial roubou um pouco deste clima mais anárquico, subversivo e espontâneo que o carnaval promovia. Naquele tempo era forte o sentido de permissão para se debochar, exibir e olhar, mexer com os outros e brincar.
Os blocos resistiram bravamente e parece até que ganharam novo ânimo, mas a maioria já tem empresários, organização e seguranças para garantir que só os pagantes sigam em seu meio. Ainda assim, alguns tradicionais blocos, chamados sujos, também apelidados de “vai quem quer”, teimam em fazer valer o verdadeiro espírito da coisa, sem inscrições prévias, sem taxas, sem temas e, às vezes, até sem banda, quem quiser pode bater latas. Para estes eu tiro o meu chapéu de palha!
Lembro-me de um carnaval que passei visitando um amigo em Jacupiranga, no vale do Ribeira, região tomada por grandes fazendas de bananas, no qual vi um espetáculo paradoxal. No desfile oficial, bancado pela prefeitura, vinha um bloco da elite, o tema era “Os Vikings”, e o principal carro alegórico era tão grande que não conseguia fazer as curvas pelas estreitas ruas da cidade, além disto, seu mastro tinha que ser abaixado, cada vez que passava pelos fios de eletricidade.
Depois dele, vinha o povo e a primeira coisa que me chamou atenção, por contrapor-se ao grandioso barco Viking, foi uma canoa que era arrastada sobre rodinhas de rolemã; depois vinham fantasias, originais e criativas, lembro-me particularmente de uma: era uma embalagem de geladeira, feita de compensado de madeira, conduzida por um sujeito metido dentro dela e, pelos orifícios da caixa, projetava-se uma luz de vela que ele carregava para poder enxergar.
Ali estava preservado o sentido mais tradicional e, ao mesmo tempo, original e subversivo do carnaval, no qual, dentre outras coisas, como o bobo da corte, as pessoas denunciavam o ridículo das classes dominantes, como na origem dos desfiles das escolas de samba, que imitavam, caricatamente, os desfiles da corte.
Este é o verdadeiro espírito do carnaval, usando a criatividade e a espontaneidade para subverter a ordem das coisas, nem que seja só por alguns dias, mesmo porque, como dizia uma canção do Edu Lobo, “Carnaval, desengano, na quarta-feira sempre desce o pano”.
É carnaval, deixe incendiar seus desejos, afinal, para que serve a quarta- feira de cinzas?

