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Educação Brasileira e os Desafios do Mundo Contemporâneo na Perspectiva da Escola de Ensino Fundamental e Médio


Rodrigo Giannangelo de Oliveira


O professor sempre dominou o conteúdo da disciplina que leciona – a “matéria" propriamente dita. O professor de Matemática conhece as equações e teoremas matemáticos; o de Português, as normas do padrão culto do idioma; o de Química, as substâncias e suas reações, e assim por diante. Egresso de um curso de licenciatura ou encaminhado ao magistério por contingências do mercado de trabalho, é comum que o docente entenda ser a atribuição básica de sua função transmitir aos alunos o conhecimento que detém sobre a “matéria”. A transmissão deste conteúdo, planejada por ele, pela coordenação pedagógica, e de acordo com diretrizes governamentais (expostas em toda a extensa legislação educacional), seria o sentido da presença e da permanência de professores e alunos na escola. Perseguindo este intuito, cada professor desenvolve, a partir de sua formação e experiência, estratégias para que o conteúdo seja apreendido pelos alunos da forma mais eficiente possível (o que será avaliado periodicamente por meio de exames).

Evidencia-se do exposto que, dentro desta lógica, ao professor cabe cumprir apenas um papel: o de ser AQUELE QUE SABE. E aquele que pode, justamente por isto, ensinar, ou seja, transmitir sua "sabedoria". É o que faz dele um professor: saber alguma coisa e transmitir esta coisa a alguém.

E ao aluno, cabe o quê?

O outro lado. Cabe não saber. É isso que faz dele um aluno: não saber aquela coisa.
Em outras palavras, deste ponto de vista, a possibilidade da relação pedagógica se instaura porque há um sabedor e um não-sabedor. Quem sabe, ensina, e quem não sabe, aprende, estando, assim, resolvida a questão...

Resolvida a questão?

Viver o dia-a-dia das escolas de ensino fundamental e médio brasileiras mostra algo diferente. Como educador, me acostumei a conviver com uma certa insatisfação generalizada de alunos e professores. É difícil, e por vezes até mesmo desolador, perceber o abismo que existe entre aquilo que idealizamos em nossas propostas pedagógicas e aquilo que conseguimos ter na prática. A indisciplina, cada vez mais violenta, a evasão, a repetência, a falta de diálogo, etc., tudo isto muitas vezes acaba falando mais alto que nossas boas intenções. O professor sabe, sim. O aluno, não. O professor parece disposto a ensinar. O que falta então?

Sugiro que talvez falte algo que a escola finge não saber: podemos ser transmissores ou receptores de informação, até por conveniência, mas o que perpassa a situação de estar na escola é o fato inalienável de sermos todos humanos. Humanos com suas dores, dúvidas, faltas, frustrações, seus desejos e limites emergentes. Demasiado humanos, sempre e em qualquer lugar, buscando sentido para o que nos acontece. E a esta obviedade a escola não tem dado atenção. Repetindo o modo de ser já consagrado por outras instituições no mundo ocidental contemporâneo, defendo a tese de que a escola não se sente responsável nem capaz de lidar com as vicissitudes das humanidades que acolhe em seu interior.

E eis a questão: não é possível deixar do lado de fora a humanidade de alunos e professores, o que torna a responsabilidade inevitável. Responsabilidade enquanto habilidade para responder, o que pede um atento debruçar-se diante da situação, uma atitude adaptada e zelosa. Porque sempre que não reconhece a responsabilidade de receber em seu interior sujeitos humanos (muito antes de “profissionais” e “alunos”), e age como se a “transmissão-recepção” de conhecimentos fosse um processo maquinal, a escola paga um preço alto. Os desafios que hoje enfrentamos com tanta dificuldade na educação manifestam isso com clareza.

Por que às vezes verificamos um disparate tão grande entre aquilo que os alunos aprendem ou deixam de aprender na escola e aquilo que vivem no seu cotidiano? Como compreender o rapaz que detesta Física, mas conhece tudo sobre o funcionamento do motor à gasolina de sua moto? Ou o que é reprovado em Geometria, mas é mestre na construção de pipas na rua onde mora? A menina sem vontade de ir para a aula, que não vê a hora de chegar em casa para brincar de "escolinha" com as amigas? Ou mesmo os alunos que dizem odiar Matemática, e mais tarde se tornam grandes engenheiros?

Como encontrar sentido para a indisciplina, freqüentemente eleita pelos professores a "inimiga nº 1" da sala de aula? De que maneira a indisciplina se apresenta como desafio ao modelo de escola como transmissora de conhecimentos?
Raramente paramos para pensar possíveis respostas a tantas perguntas (até por falta de um tempo próprio para isso). Não consideramos o quanto é mais fácil aprender quando estamos diante de algo que nos pareça significativo e importante (seja o motor de uma motocicleta, uma pipa etc.), e o quanto a linguagem de nossas aulas talvez esteja distante daquilo que é significativo para nossos alunos. Esquecemo-nos, inclusive, de nossa própria experiência pregressa como alunos, e muitas vezes nos tornamos cópias daqueles que, no passado, não consideramos nossos melhores educadores... Só mesmo o fato de não termos até hoje pensado nestas questões justifica que fiquemos tão espantados quando os alunos se recusam a demonstrar interesse por algumas de nossas disciplinas.

Além disso, a própria concepção de escola como local de transmissão de conhecimentos, que estipula ao aluno o papel de mero acumulador, vem sendo frontalmente questionada por inúmeros outros desafios que a sociedade contemporânea vem apresentando à educação.

A escola sempre entendeu que, para "se dar bem na vida", bastava ao aluno apreender, com a maior extensão e exatidão possíveis, todos os conteúdos comunicados a ele pelos professores em suas aulas. Ainda me lembro bem que, na minha época de colégio, o aluno dito "genial" era aquele que tirava as maiores notas em provas que, invariavelmente, apenas cobravam que se repetisse o que havia sido exposto pelo respectivo professor durante aquele período letivo. Mas o sucesso neste tipo de avaliação não era a única característica que chamava a atenção nestes “melhores da classe”. Meus colegas "geniais" tinham um círculo muito restrito de amigos ou colegas, sempre demonstrando extrema dificuldade em se entrosar com as pessoas. Meus colegas "geniais" raramente falavam sobre hobbies, passeios, viagens, animais de estimação, desejos adolescentes etc. Eram sempre pessoas muito sérias (no sentido de sisudas) em seus gestos, em seu vocabulário, e, às vezes, até no jeito de se vestir. Em outras palavras, os “melhores da classe” eram quase sempre inábeis fora dela, não demonstrando a mesma competência em seus relacionamentos afetivos ou na prática esportiva (chegaria mesmo a dizer que tinham desempenho, nestes aspectos, muito abaixo da média), apenas para ficar com estes exemplos.

Já faz algum tempo que deixei de observar estas coisas na perspectiva de aluno e passei para "o outro lado da mesa", ou seja, me tornei um educador. Contudo, tenho verificado desde então que este quadro pouco mudou. O tipo de desempenho valorizado por nossas escolas permanece praticamente o mesmo, ainda que tenhamos cada vez menos motivos para isso.

Por exemplo, uma "desculpa" muito usada pela escola para valorizar este aluno altamente especializado na apreensão irrefletida de conteúdos sempre foi o vestibular. No dia em que os vestibulares mudarem suas exigências, a escola muda também – se vivia dizendo. Pois tal mudança já está em curso. À guisa de ilustração, o próprio ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), para além da repetição de fórmulas e datas decoradas, exige hoje do aluno a aplicação do raciocínio em problemas da vida real. E já é claro o movimento dos vestibulares no sentido de se adaptarem a estes novos parâmetros.

Na sociedade atual, não é mais possível pensar a educação formal de crianças e jovens sem falar na contextualização do conhecimento e na articulação das diversas disciplinas, ressaltando pontos significativos comuns a elas, e na transformação de alunos em cidadãos conscientes de seus direitos e deveres, mais aptos a negociar no meio público os conflitos de suas próprias vidas. Vivemos um tempo em que a importância daquele conhecimento calcificado e morto, de velhos códigos e fórmulas para resolução de problemas, vem desaparecendo. Hoje em dia, conhecimento é mesmo coisa dinâmica. O conteúdo que se aprendeu na escola ano passado pode até mesmo não valer mais esse ano.

É por isso que grandes empresas hoje estão dispostas a ensinar as funções exigidas por seus postos de trabalho, via treinamento, aos funcionários que não tiverem, no ato da contratação, todo conhecimento necessário. Elas sabem que, pela própria mobilidade e atualização constantes do mercado, da ciência e da tecnologia, terão que fazer isso ainda muitas vezes, mesmo depois que este funcionário tiver anos de casa, se quiserem mantê-lo atualizado e sempre apto ao trabalho. E, assim, cai por terra outra de nossas "desculpas" para exaltar sem crítica o aluno "nota 10" de nossas escolas: a preparação para o mercado de trabalho. Que empresa cujo setor de seleção goze da plenitude de sua saúde mental contrataria uma pessoa como a descrita mais acima, o “gênio” inapto para o relacionamento pessoal?

Sabemos que os processos seletivos das grandes empresas são às vezes mais concorridos que os maiores vestibulares do país. E então, quais os critérios?

Numa seleção de vaga típica em uma grade empresa, os candidatos podem ser primeiro submetidos a uma prova de conhecimentos específicos da função a ser desempenhada (esta avaliação, normalmente por escrito, pode ser complementada por outras, de conhecimentos gerais e de uma língua estrangeira, por exemplo). Esta primeira fase costuma servir apenas para eliminar os candidatos que tenham demonstrado um desempenho aquém do mínimo desejado. Os demais, dos regulares aos "nota 10", todos vão para a fase seguinte. A partir disso, a seleção geralmente passa a ser definida em entrevistas e dinâmicas de grupo, nas quais serão observadas as características pessoais que podem encaixar-se ou não no perfil exigido pela vaga em questão. Desta forma, se nota que, numa seleção desse tipo, o conhecimento formal, embora importe, está longe de definir sozinho uma boa colocação profissional.

Aquilo que a empresa de hoje exige e faz questão, pois sabe que não se ensina num treinamento, é o perfil. O mercado hoje está mais preocupado em saber se o candidato é capaz de ter determinadas atitudes frente a situações que saber se ele tem este ou aquele conhecimento específico. O jogo de cintura, a capacidade de negociação, a articulação da argumentação, atualmente valem mais que qualquer informação decorada. Trabalhar em equipe, forma privilegiada de resolver problemas, é fundamental. Saber ser líder, com a complacência e a sabedoria exigidas pela função, pode significar uma promoção. O mercado vive segundo novas leis. A pessoa mais "genial" nestes novos princípios pouco tem a ver com aquele "gênio" sem amigos dos tempos de colégio. Este, pela imensa palidez de seu conhecimento, pode estar fadado a tornar-se um burocrata, apartado de qualquer prestígio, se não souber se adequar.

Enfim, não vivemos mais a realidade de outrora. A inadequação de nossos velhos procedimentos frente aos desafios contemporâneos intensifica a crise pela qual passa a escola de ensino fundamental e médio. Momentos como esse pedem de nós o abandono de supostas verdades até então inquestionáveis. Pedem a des-construção de um saber que se mostra desatualizado. E desconstruir não significa destruir. Pelo contrário, é desfazendo que encontramos novamente o solo fértil de onde podem brotar soluções mais adaptadas e criativas. Como na história contada por Guimarães Rosa, no Prefácio ao seu “Tutaméia”, do garoto que, passando diante de uma casa que estava sendo demolida, gritou exultante: "Olha, mãe, estão construindo um terreno!".

 

 

 

 

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