Plantão Psicológico: Lidar com o Inesperado de Emergências
Trabalho apresentado na mesa redonda "Plantão Psicológico: uma perspectiva que se amplia" do I Congresso Brasileiro de Psicologia - USP - São Paulo
Dezembro de 2002
Maier Augusto dos Santos
"Aqueles que não amam mudança não são, verdadeiramente, visitantes da Terra."
Richard Bach
"Se buscas a segurança antes da felicidade, a segunda será o preço que terás que pagar pela primeira."
Richard Bach
Abertura
Boa tarde a todos, gostaria de agradecer a presença de vocês e dizer que estou muito feliz em participar do Primeiro Congresso Brasileiro de Psicologia: Ciência e Profissão e poder dividir a minha experiência aqui neste evento.
Transição
A minha apresentação está dividida em alguns tópicos, sendo: Primeiro contato com Plantão Psicológico; O inesperado; As emergências; Habilidades do terapeuta; Casos Clínicos.
1) Primeiro contato com Plantão Psicológico
O meu primeiro contato com plantão psicológico ocorreu no quinto ano da faculdade. Logo no início do semestre o supervisor pediu à turma que falasse o que lhe despertava o nome plantão psicológico. A imagem que me veio à cabeça foi o seriado americano E.R. plantão médico, onde tudo podia acontecer e acontecia e os profissionais viviam com a “adrenalina a mil”. A surpresa acompanhava cada atendimento. Essa imagem me acompanhou durante aquele ano todo, e permanece até hoje no GestaltSP, instituto do qual faço parte como psicólogo plantonista e acredito que essa imagem ainda faz jus aos acontecimentos.
Transição
Essa imagem, como já dita antes, está permeada por situações inesperadas, entendendo aqui o inesperado como: o não esperado, o imprevisto.
2) O inesperado
Vivemos num mundo repleto de inesperados, somos atropelados por mudanças a todo instante. Perda do emprego, separação, competitividade, instabilidade econômica e com isso a necessidade de adaptação. Apesar dessa necessidade de adaptação, muitas vezes buscamos um local confortável, previsível, modelos de atuação “seguros”. Trabalhar com o plantão me ensinou a não esperar nada, estar aberto à experiência, confiar nas próprias ferramentas e aprender a adaptá-las e lapidá-las na situação.
Transição
Dentro deste panorama de necessidade de adaptação ao novo, ao imprevisto e ao inesperado, é importante entendermos e refletirmos a respeito das emergências, às quais estaremos sujeitos enquanto psicólogos.
3) Emergências
Entendendo emergência, como algo que emerge ou situação crítica. As pessoas que procuram plantão estão vivendo questões e problemas que surgiram naquele momento como algo que chegou ao limite e precisa de cuidado, ou ainda estão passando por mudanças drásticas e procuram orientação e o reencontro com seu equilíbrio anterior. Desde rompimentos de namoro até rompimentos com a realidade. Responder a toda a demanda com psicoterapia, nem sempre é viável e aceitável pelas pessoas, o plantão entra, portanto neste vácuo, onde o que configurará o atendimento ou encontro é o próprio cliente, de acordo com sua necessidade emergencial.
Frente a esta situação, do inesperado e das emergências, não posso atuar com modelos pré-definidos, pois a minha atuação será desenhada à partir do próprio cliente, o que não significa passividade do terapeuta, muito pelo contrário...
Transição
... para lidar com este panorama, são necessárias algumas habilidades básicas, ferramentas básicas. As quais são desenvolvidas em supervisão e nos próprios atendimentos.
4) Habilidades do Terapeuta
As habilidades necessárias para quem trabalha com plantão psicológico são:
1) Disponibilidade para se defrontar com o não planejado e com a possibilidade de que o encontro com o cliente seja único.
2) Enfocar a experiência do cliente ao invés do seu problema.
3) Empatia: sentir o que se sentiria, caso se estivesse na situação e circunstâncias experimentadas.
4) Congruência: Estar congruente consigo mesmo é estar de acordo, estar harmônico. A harmonia implica um estar aberto aos próprios sentimentos, podendo-se escutá-los, elaborá-los e expressá-los.
5) Consideração positiva incondicional:
Tendência atualizante – tendência inerente para desenvolver todas as suas potencialidades e para desenvolvê-las de maneira a favorecer sua conservação e seu enriquecimento (Rogers e Kinet, 1971, p. 159).
Liberdade experiencial – consiste no fato de que o indivíduo se sente livre para reconhecer suas experiências e sentimentos pessoais como ele os entende. Supõe que o indivíduo não se sinta obrigado a negar ou a deformar suas opiniões e atitudes íntimas para manter a afeição ou o apreço das pessoas (Rogers e Kinet, 1971, p. 46).
Considerar positivamente o outro implica acreditar que cada um tem ou está em busca de sua própria rota e que esta é a sua preferida. Não há uma melhor rota para ele, senão essa, pois essa é sua e apenas sua, e, como tal, é única.
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Agora eu vou contar três casos que atendi em plantão psicológico e algumas características desses encontros.
5) Casos clínicos
Adolescente de quinze anos procurou o serviço de plantão psicológico, acompanhada por uma amiga da mesma idade e a mãe dessa amiga. Solicitou atendimento urgente, pois havia sido abusada sexualmente e isso lhe trazia alguns problemas nas relações sexuais com o namorado. Contou que o abuso havia sido perpetrado por seu pai desde os 10 anos, começando com carícias e posteriormente com penetração. Durante o abuso seu pai lhe dizia que deveria ficar quieta, pois caso falasse com alguém arruinaria suas vidas. Esta situação permaneceu até há pouco tempo atrás quando ela saiu de casa e foi morar com uma amiga. Sua mãe estava ciente do ocorrido, contudo dizia que nada podia fazer. Ela passava por momentos difíceis, pois havia tentado algumas vezes o suicídio, ingerindo substâncias tóxicas.
Duas sessões – angústia dos terapeutas em não poderem acompanhar o caso.
Foram trabalhadas questões como: culpa, expressão dos sentimentos e consciência a respeito dos fatores envolvidos no abuso, responsabilidades, medidas jurídicas.
Habilidades do Terapeuta: Necessidade do terapeuta em aprender a lidar com o sentimento de frustração, angústia e impotência.
Mulher na faixa dos trinta anos comparece ao plantão e seu atendimento estava previsto para as 20:30h, contudo ao ser anunciado seu nome, não se apresenta e somente próximo das 22:00h, a recepcionista pergunta-lhe se estava aguardando alguém. Disse-lhe que esperava ser atendida e seu horário estava marcado para as 20:30h. A recepcionista procura algum plantonista para atendê-la por meia hora, pois a clínica fecharia às 23:00h. Relatou apatia e tristeza em alguns momentos, tendo dificuldades para sair de casa, encontrava-se desempregada e relacionou esse momento com a morte de seu pai, o qual havia falecido há dois anos atrás e não conseguia ter reação alguma frente à lembrança da morte. Seu pai lhe era uma pessoa muito especial e alegre.
Seis sessões – satisfação com o resultado do plantão, pois nas seis sessões a cliente reorganizou sua vida, voltou a trabalhar e conseguiu “enterrar” seu pai simbolicamente.
Foram trabalhadas questões como: expressão dos sentimentos, assertividade, recolocação profissional e vivência do luto (técnica da cadeira vazia).
Habilidades do terapeuta: essa paciente provocou nos terapeutas um grande desconforto em relação à sua apatia, a partir daí pode-se compreender a importância da EMPATIA, pois esse desconforto possibilitou aos terapeutas identificarem o ponto a ser trabalhado.
Mulher na faixa dos vinte anos procura o Plantão Psicológico. Trás como queixa dificuldade em levar adiante seus estudos e sente-se pressionada pelos pais que custeiam seus estudos a não desistir. Relatou apatia generalizada e dificuldades para dormir.
Três sessões – encaminhamento para psicoterapia individual.
Foram trabalhadas questões como: escolha profissional, resgate do prazer em sua vida e afetividade.
Habilidades do Terapeuta: Congruência, senti o peso de uma escolha profissional mal elaborada, e a partir desse ponto a intervenção foi realizada.
Fechamento
Eu gostaria de relatar uma situação vivida por mim no terceiro ano da faculdade e que não me saiu da cabeça até o encontro com plantão. Eu estava com alguns colegas na praça de alimentação da faculdade e de repente ouvi um grito assustador a poucos metros de mim. Um rapaz estava ao telefone, deu esse grito e caiu no chão. Naquele momento me senti invadido por um certo terror e impotência, até que a enfermeira de plantão na Universidade se apresentou e prestou os primeiros socorros. Fiquei sabendo mais tarde que o rapaz havia recebido a notícia da morte de seu pai querido. Perguntei-me: porque eu não o socorri? Estou caminhando para ser psicólogo e fiquei amedrontado com a dor dessa pessoa? Porque somos da “área da saúde” e esperamos um médico ou enfermeira? Não lidamos com emergências... foi a conclusão que cheguei naquele momento. Que frustração a minha, mas felizmente o plantão psicológico respondeu essa questão. Gostaria de encerrar com uma frase: (...) e uma pergunta: o que buscamos em nossa profissão? Flexibilidade e jogo de cintura ou rigidez e segurança, somos ou não facilitadores da mudança.
Referências Bibliográficas
Morato, H. T. P. Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa: novos desafios. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1999.
Rosenberg, R. L. Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa. São Paulo: EPU, 1987.
Objetivo da minha apresentação:
Quando eu terminar a palestra gostaria que meus ouvintes soubessem o que é lidar com o inesperado de emergências em plantão psicológico, entendessem esses conceitos de uma forma funcional e simples a partir de minha experiência e de alguma referência bibliográfica.
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