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Especialidades da Relação Terapeuta-Cliente no Plantão Psicológico
As relações que os homens estabelecem entre si e com as coisas do mundo - seres animados e inanimados, naturais e artificiais – não são acessórios da vida humana, mas constituem uma condição ontológica do existir, ou seja, são inerentes à forma como o viver nos é dado. Não surgimos para o mundo como seres em si, nem o mundo nos aparece como coisa em si; tudo o que há está inscrito numa trama de significados que imprime, em cada singularidade, a marca deste plural. O outro não é apenas alvo de meu olhar, mas também seu aspecto constituinte. Meu olhar já é, ele mesmo, informado do mundo, gestado no mundo. Minha própria existência só se realiza pela presença e pelo testemunho de outros a quem, solidariamente, retorno, também servindo de presença e confirmação. Sem essa trama de olhares e falas em relação, solipso, o homem não existe. A nós, seres dotados da capacidade de perceber e atribuir significados ao que nos toca através da experiência, as coisas se oferecem. “No vigor de sua essencialização o homem é a locanda, em cujo espaço se desdobra a verdade dos entes.” (EMANUEL CARNEIRO LEÃO na Introdução a HEIDEGGER, 1995, p. 13) Nós somos, portanto, responsáveis pelo ser das coisas, por dizer daquilo que elas são de acordo com sua manifestação. E por dispor delas da forma como nosso ser-no-mundo permitir ou exigir. Este talvez seja o sentido mais original do cuidado – o cuidado de ser que se coloca constantemente sob nossa responsabilidade, nunca como algo resolvido e superado, mas sempre como algo que se coloca a resolver. Eis outra condição ontológica do existir humano: o ser é sempre uma questão. Para o homem, “ser nunca é algo que lhe é entregue já resolvido, como no caso de ser pedra, ser águia, ser roseira.” (Critelli, 1996, p. 48) Ser homem é levar possibilidades adiante, “erupção e transformação inesgotáveis.” (idem, p. 80) A cada nova dimensão que se nos abre quando descortinamos sentidos para as coisas, como se, sucessivamente, nascêssemos de novo em cada acolhimento de ser. Dessa forma, dizemos do existir humano que ele é sempre um co-existir, um ser-com-os-outros, relacional por fundamento, e que ser homem é cuidar de ser. Relação e cuidado estão na origem daquilo que o homem é. Não chegamos a isso por acaso. Lembremo-nos agora do tema desta mesa-redonda: “Plantão Psicológico: Uma perspectiva que se amplia”. O que implica isso? Implica falar de cuidado (no sentido de atenção psicológica, de acolhimento). Pensemos também no recorte que minha exposição se propõe a fazer, a saber, a reflexão sobre possíveis especificidades da relação terapeuta - cliente neste contexto de atuação. O que está implicado agora? Falar sobre um tipo de relação humana. Relação e cuidado também estão na base e na origem dos objetivos a que se dispõe esta mesa. Por isso até aqui me ocupei deles. Agora que já refletimos sobre alguns sentidos para relação e cuidado, remetendo-os às condições em que a vida é dada aos homens, creio que estejamos prontos a levantar algumas questões mobilizadoras. Se o estar em relação é essencialmente humano, como podem existir relações “desumanas”? Mais que isso, de onde surgem o isolamento e a sensação de solidão? Se o cuidado com o ser é fundante do ser homem, de onde vêm a indiferença, o desprezo e o descuido? Como disse há pouco, estas são apenas questões mobilizadoras. Obviamente, não tenho qualquer pretensão de respondê-las... Mas são interessantes motes para o pensamento. Para pensar, por exemplo, o percurso que, na civilização ocidental, instaurou esta determinada forma de ser, ver e pensar o mundo que nos afastou do domínio da experiência e enrijeceu o ser das coisas em lugares alheios ao sensível. Este pensamento fundamental, que tem cerca de 2500 anos de história, é aquilo a que Heidegger se refere como metafísica. Como diz Critelli (1996, ps. 12 e 13), “depois de Platão ter instituído o conceito (uno, eterno, incorruptível) como o lugar de manifestação da verdade de tudo o que é; depois de Aristóteles ter estabelecido que ao intelecto pertence esta função de conhecimento; e depois de Descartes ter modulado este intelecto como Cógito (...), parece-me que o Ocidente moderno aceitou esta via como a única perspectiva adequada, viável e válida para a aproximação entre homem e mundo, para seu saber a respeito de tudo com que se depara, inclusive ele mesmo.” Sim, a dominação foi tão completa que também nossas vidas, relações, nossos pensamentos e sentimentos foram submetidos aos cânones da técnica. Ao invés de relações baseadas em falas autênticas, sentidas, comunicadoras de narrativas de vida e geradoras de relações significativamente humanas, hoje quase sempre apenas nos colocamos diante dos outros repetindo informações, encadeando raciocínios lógicos, deduzindo. Proferimos máximas, ditos, sabedorias que não nos pertencem. Usamos o próprio outro somente como objeto-ouvinte para nossas repetições. Falamos muito, mantemos a casa de nossa existência cheia de sons. Condenamos qualquer silêncio a ser ignorância, ingenuidade, falta de cultura. A narrativa, de que falava Walter Benjamim (ver, por exemplo, BENJAMIM, 1995), ligada à experiência, dá lugar, em nossa civilização, ao ritmo frenético da informação. Ser bem informado é a lei. No entanto, não percebemos que, apesar disso, estamos mudos. Falamos de qualquer coisa, menos de nós mesmos. Na base do nosso modo de habitar o mundo ocidental moderno está um homem que condena ao segundo plano toda uma dimensão da vida na qual se encontram os afetos, as lembranças, as dúvidas e os conflitos, as paixões; um homem que, pelo utilitarismo das relações que estabelece com as coisas e com os outros, muitas vezes está sozinho em termos de vínculos significativos e de confiança; um homem que se esqueceu de si. Por isso, a despeito de todo falatório que também caracteriza nosso modo de ser homem na modernidade, paradoxalmente, certos recônditos de nossa morada permanecem intocados e solitários. O humano dominador não domina a essência de sua própria dor. Escondidos do falatório, donos de um silêncio sepulcral, estes não-lugares de nossa existência como homens e mulheres só são rompidos com uma fala especial, criativa e genuína, que formula pela primeira vez. Uma fala que é idêntica ao pensamento, na qual “o pensamento está se fazendo no ato de falar e não apenas se traduzindo externamente.” (Amatuzzi, 1989, p. 27 [grifo do autor]) Este falar autêntico é o homem em ato. Em outras palavras, para que possa se conhecer, é preciso que o homem seja profundamente aquilo que é. A impossibilidade da fala, ao menos da fala autêntica de que tratamos aqui, é vista pelos psicólogos em suas salas de atendimento como paralisia, como perda do sentido de viver, da comunicação, da alegria. Se a forma como nossa coletividade se acostumou a viver não favorece entre as pessoas a construção de relações baseadas neste dialogar genuíno, se as próprias relações significativas do indivíduo se esvaem para dar lugar a encontros meramente funcionais e fortuitos, se o paradigma da era da informação baniu de quase todas esferas da vida o relato das experiências (via narrativa) no qual são tecidos os sentidos de ser, somos tocados por essas coisas em nossa humanidade pela indignação. Ainda que racionalmente tenhamos eleito a técnica e a informação como acessos legítimos à Verdade, sentimos que nossa vida permanece sendo aqui, na Terra. É a isso que devemos voltar nossa atenção psicológica e nosso cuidado. E é a isso que se refere o Plantão Psicológico. Como espaço que se pretende “subversivo” a esta ordem social, como resgate da dimensão perdida da narrativa, do valor da experiência, do entretecer de sentidos para as coisas da vida em relação. Como espaço de ajuda, em outras palavras, no qual comparecem não os conhecimentos técnicos de especialista de um psicólogo, mas a própria figura do psicólogo (plantonista) em sua humanidade presente, disposta, disponível e despojada. No Plantão Psicológico, uma relação francamente humana se oferece como possibilidade para duas pessoas acontecerem, inaugurarem-se. Existência em ato. Perceber-se em relação é uma experiência da dimensão do sensível que põe o sujeito em contato com suas próprias falas e silêncios, dores e alívios, ações e reações, e oferece estes fatos ao alcance público do olhar e da fala de um outro. Dos testemunhos sucessivos e interdependentes que surgem dessa dinâmica emergem significados e sentidos daquilo que é falado e calado. Sentidos que surgem na relação também são apenas perspectivas, pontos de apoio inscritos no vigor daquela específica experiência sensível de relacionar e perceber-se, e também não são para durar a vida inteira. Damos um sentido a esta ou aquela questão e esperamos que ele seja infinito enquanto dure. Enquanto com ele for coerente a perspectiva, o ponto de vista que ocupamos no momento com relação àquela determinada questão, ou seja, a forma como estamos dispostos no mundo. Porque novas relações e novas experiências acontecerão. E se permanecermos abertos, a elas serão atrelados novos significados e sentidos a novas ou velhas questões. Imaginamos que, sendo o humano esta abertura, nosso Plantão Psicológico permanecerá também aberto, pronto a retomar sua vocação de cuidador e percorrer o caminho da busca do sentido de ser homem no mundo. Por meio de uma relação estritamente humana, apenas. Aqui, as técnicas não são precisas.
Bibliografia Consultada: Amatuzzi, M. M. O Resgate da Fala Autêntica (Filosofia da psicoterapia e da educação). Papirus, Campinas, SP, 1989. Benjamim, W. Obras Escolhidas I – Magia e Técnica, Arte e Política. (Ensaios sobre Literatura e História da Cultura). Brasiliense, SP, 1985. Critelli, D. M. Analítica do Sentido. Educ: Brasiliense, SP, 1996. Heidegger, M. Sobre o Humanismo. Tempo Brasileiro, RJ, 1995 |
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